Felipe Costa: Sobre Ricardo de la Riva e ensinando crianças cegos.

no dia

Não se treina da mesmo forma um atleta da categoria do peso pluma, pesando 60 kg, e um outro da categoria do peso pesado, pesando 90kg. Felipe Costa montou em Copacabana um treino reservada aos pesos leves. Não podem treinar atletas pesando mais de 74 kg. Uma balança é presente para conferir o peso do falso magro.


 
Felipe Costa: "Eu não tenho dúvida que treinar com gente mais pesada na minha vida conforme eu fui evoluindo me ajudou, ajudou a minha técnica, porque você se colocar nas situações dos mais variados pesos ou tamanhos tudo isso te dá um arco, uma possibilidade muito grande de experimentar várias técnicas diferentes."

BJJPix: "Você já machucou com um cara mais pesado?"
 
Felipe: "Só machuquei com cara mais pesado. Nunca machuquei com um cara do meu peso ou próximo do meu peso. A menos assim dedo, aquela coisa de você ficar preso. Então com isso vai diminuir a chance de você se machucar e acho que isso é o número um tanto para o atleta quanto para o professor."

BJJPix: "Você já ficou parado muito tempo por causa de lesão?"
 
Felipe: "Eu já machuquei o ombro, foi a maior lesão que eu tive no Jiu Jitsu. Meu ombro já saiu do lugar cinco vezes. Todas as vezes eu fiquei pelo menos três meses sem treinar."

BJJPix: "Conte-nos como você começou a treinar com o Mestre De La Riva."
 
Felipe: "Quando o Comprido foi morar em Chicago eu fiquei meio órfão, né, sem ter onde treinar e tal. Na época eu estava dando aula para as crianças cegas e um outro amigo ia visitar. Esses eram meus treinos. Às vezes vinha algum estrangeiro de visita no Rio. Em 2007, veio um casal de faixa roxa da Bélgica. Eu fiquei uns seis meses treinando só com eles dois. Aí um deles, o homem, vinha do De La Riva aqui e ele falava: "Porque você não vai lá no De La Riva, tem um treino bom e tudo."
Eu falei: "Não conheço, eu conversei com o De La Riva uma vez, assim." Encontrei ele assim no aeroporto e puxei assunto, tipo fã mesmo.
 
Ou seja, foi um gringo que me trouxe para o De La Riva, me apresentou e no primeiro dia que eu vim no De La Riva ele treinou comigo. Naquilo eu pensei assim, ele fez o que muita gente faz. Às vezes o professor tem um visitante, ele vai lá e treina com o cara né. A gente deu um treino super legal. Depois que eu fui saber, aquilo é uma coisa super rara porque ele não está toda a hora ali treinando com todo mundo ele escolhe bem, entendeu? Então, cara, eu já tive a honra de treinar com ele, talvez por eu ser um cara mais leve e tudo.
E a gente já começou a ter uma amizade ali. E eu sei que eu já treinei mais com o De La Riva do que muito aluno antigo dele. Porque não sei, acho que deve ter uma confiança de que, também por eu ser leve e não ter o perigo de machucar e tal, entendeu? Tive sorte nisso. Aí eu comecei a ir muito no De La Riva."

BJJPix: "Como surgiu a ideia de um treino só de pesos leves?"
 
Felipe: "Quando eu casei eu fui morar na Tijuca em  2005. O Comprido se mudou para os Estados Unidos em 2006. Ele dava aula onde é a Checkmat agora. Era uma academia dele. É, ali no Posto 6. Quando o Comprido saiu, eu saí também. Então nessa é que eu falo que fiquei órfão. Aí conheci o pessoal da Soul Fighters, fui treinar lá. Isso foi muito bom para mim porque eu comecei a conhecer pessoas novas. Eu sempre treinei na mesma academia, então nessa época, comecei a visitar muitas academias, fazer muitas amizades. Eu comecei  a ser bem-vindo em vários lugares. Isso abriu minha mente de uma outra maneira, por isso que eu aconselho tanto. Aí nesse instante eu comecei a sugerir: Pô, e se a gente desse um treino só da galera mais leve? Foi daí que começou. Aí quando eu comentei com o De la Riva falei: Estava pensando em fazer um treino assim, posso chamar alguns atletas seus? E ele: "Claro que pode, inclusive você pode fazer aqui na minha academia."

Não demorou muito, começou aí a surgir essa história de que ele ia fazer a luta de despedida dele e tal. Aí ele começou a fazer parte dos treinos também. E foi. Aí a parada foi ganhando fama. Hoje acho que o treino dos leves é meio conhecido, sabe. Tem gente que não vem porque acha que vai morrer no gás. Não é. Cada um faz o teu ritmo."

BJJPix: "Você mentionou que dava aula para cegos?"
 
Felipe: "Dei aula durante sete anos na escola para cegos. Tinha um tatami lá. Botamos eles para competir em campeonatos normais. Uma vez, a gente fez um campeonato no instituto aberto para todas as crianças, lutaram de igual para igual."

BJJPix: "Mas como assim, segurava no kimono primeiro?"
 
Felipe: "Ia e falava: "Se incomoda?" Ninguém falava que não. Segurava o kimono e ia embora. Muito maneiro. Tem vídeo,  eu posso mostrar. Lutavam de igual para igual."

BJJPix: "Como você explica uma técnica para um cego?"
 
Felipe: "Você tem que mostrar um por um. Estava explicando a técnica, os outros estavam escutando. Aí daí a pouco você via um chegar e começava assim, palpando. Eles começavam a sentir o que você estava falando. Então a gente estava mostrando. "Bota a mão aqui, pega no calcanhar." Daí a pouco você via dez crianças em volta de você assim. Eu dizia: "Agora vou mostrar para você. Você que já fez, faz com outro e você vai ensinar o outro"  aí ensinava o outro eu ia ensinando esse. Muito maneiro. A gente chegou até azul. Foi o máximo. Eles tinham de 12 até 20 anos. Os caras ficavam bons."

BJJPix: "Você acha que eles pegavam as posições mais rápido?"
 
Felipe: "Acho que ia de cada um. Eu acho que não tinham desvantagem nenhuma de uma pessoa normal, entendeu? Do mesmo jeito que uma pessoa normal tem um dia melhor e um dia pior, eles eram iguais, entendeu? No primeiro dia que eu fui lá eu pensei: "Coitados, né. Como é que eu vou lidar com eles?" . Depois que você começa você vê que não tem nada, não tem nada de coitados. Os caras são normais, eles não ficam se vitimizando, não se fazem de vítimas por isso. Foi muito legal, uma experiência muito boa. Depois a escola fechou. Pena que acabou. Mas teve aluno que continuou treinando, foi para outras academias. Eu acho que o Jiu Jitsu talvez seja um dos esportes que o cara pode fazer de igual para igual."