Leo D'Avila sobre a IBJJF, a Atos and o jiu-jitsu moderno

no dia

Léo D'Avila, faixa preta da equipe Atos em San Diego e um dos árbitros principais da IBJJF, conversou com a BJJPix sobre a sua carreira, a sua mudança para a California, o seu time, o jiu-jitsu moderno, competir nas categorias mais pesadas, e competidores insensatos.


Conte-nos como você começou no jiu-jitsu.

Comecei a treinar com nove anos de idade com o Benevenuto Antunes, que foi meu professor e que me deu a faixa preta. Comecei com nove anos em 94. Aí meu professor se machucou e foi quando eu comecei a treinar com Zé Marcelo também em Niterói. Eu comecei a treinar porque eu queria competir e treinar mais forte. Eu comecei a treinar no Rio com a BTT. Eu competia com a BTT, só que eu sempre fui graduado pelo meu professor. Eu tinha essa coisa de “eu comecei com ele com nove anos de idade, o cara é tipo um pai para mim, quero pegar a faixa preta com ele”. Aí eu peguei a faixa preta novo, com 20 anos. Como eu comecei muito novo, peguei todas as faixas cedo. A faixa azul eu peguei com 14 anos e já lutava de juvenil. A roxa peguei com 17 anos e eu lutava de adulto. A minha trajetória foi rápida. Com 20 anos eu peguei a faixa preta e na época não tinha quase ninguém de 20 anos com faixa preta. Não era tão comum. E fiquei até aos 22 assim, só lutando no Rio. Eu só tive oportunidade de sair do Brasil mesmo em 2010, há quatro anos atrás.

Primeira viagem

A primeira vez que eu saí do Brasil fui lutar o Campeonato Europeu. Não tinha patrocinador forte, mas com a ajuda de todos eu consegui ir para o Europeu. Foi a primeira experiência fora do Brasil. Maneiro para caramba. E foi quando eu tive a primeira oportunidade de seminário. Fui só para competir, para passar uma semana e voltar.  Eu fiz várias lutas muito boas. Eu tenho fotos com a galera da Atos, porque eu já era amigo da galera da Atos através de Durinho. Durinho é meu amigo da universidade. Eu já tinha antes visitado a Atos lá em São Paulo, daí que eu conheci os Mendes, conheci o Ramon Lemos, o André, o pessoal todo lá de São Paulo, de Rio Claro. Só que nessa competição, nesse meu primeiro Europeu, na minha primeira competição fora do Brasil eu não era Atos ainda. Eu representava meu professor. Acabou que não tinha jeito, o Durinho estava na minha chave e eu tinha que lutar com ele. É meu amigo, mas… A gente lutou nas quartas de final. Infelizmente não fiquei no pódio.

Primeiro Seminário

No último dia de Europeu um amigo meu que era o patrocinador da Brasil Combat, ele me ajudou muito no início, ele falou: Leo, tem um seminário para você dar lá na Espanha. Você quer? Nunca tinha dado seminário. Desde a faixa roxa eu dava aula na cidade.
Eu não falava Inglês, não falava Espanhol, não falava nada.
"Vai com esses caras" aqui que eu nunca vi na vida. Você vai de carro para Espanha, para Bilbao. Nove horas de distância de Lisboa e eu sem falar nada e sem saber para onde ir. Mas como é que eu vou com um cara que eu nem conheço, para outro país? 
Eu tinha 5 euros no meu bolso.



Aí eu fiquei pensando assim: Eu vou arriscar. Peguei minha mala e fui.

Cheguei lá, foi tudo tranquilo. A casa era de brasileiros. No dia seguinte o meu patrocinador chegou lá e foi tudo de bom. Dei meu seminário. Fiquei uma semana lá, foi um sucesso. Depois de meu primeiro seminário abriu a porta para outro na cidade do lado, em Santander. Tinha trocado a passagem e um dia antes de vir embora para o Brasil ele recebeu um telefonema de um amigo dele da Espanha também, mas de Barcelona, quase no sul da Espanha: “Fiquei sabendo que o cara que está aí é muito bom, eu quero um seminário dele também”. Meu patrocinador voltou para o Brasil e eu fui sozinho para Barcelona. Acontece que eu fiquei no total da história quase três meses fora do Brasil. Fiquei uns dois, três meses lá dando aula coletivas e particulares. Lá estava muito bom e estava conseguindo juntar um dinheiro. Tinha pessoal me ajudando e fazendo vários passeios e tudo era novo para mim. Um frio danado, mas o pessoal era muito divertido e foi maneiro para caramba. Aí começou a abrir meus olhos: Dá para eu conseguir sair do Brasil e começar a ganhar um dinheirinho dando aula. O negócio é fazer contatos.

"O negócio é fazer contatos."

Quando eu voltei para o Brasil, tinha uns peruanos visitando minha academia. Eu já falava um portunhol, já conversei. Eles gostaram de mim: “Ah é, você dá seminário? Vamos lá no Peru." Eu falei: “Vamos”, assim que meio desacreditado. No dia seguinte eles já me trazem a passagem.
Juntei um dinheiro, tirei meu visto e vim para os Estados Unidos a primeira vez em 2010 para lutar o Pan-americano.

Isso foi quando você começou a treinar com o André?

Para o ADCC, ele estava em fase de preparação treinando bastante sem quimono e quando eu vim ele estava nessa fase, eu ajudei bastante e ele gostou muito. A gente não tinha ainda oportunidade de rolar tanto junto. Aí começou a estreitar os laços de amizade entre mim e André. Ele foi campeão em 2011 em categoria absoluta do ADCC.

Eu fiquei um tempo aqui. No início era bem difícil, porque eu não tinha patrocinador forte. Então eu dormia no tatami. Era treinar o dia inteiro e em troca de estar treinando e estar dormindo; também dava aula. Dava aula ajudando o André. Na verdade ele não tinha aula de competição, não era dividida. A academia era muito pequena. Tinha acabado de começar. Sempre foi aqui. Depois que ele ganhou o ADCC ele investiu bastante na academia, pegou o outro lado, foi ampliando. Nessa época eu tinha acabado de me formar, sou formado em Educação Física. Não tinha nada que me prendesse no Brasil. Aí foi quando decidi vir para cá e as coisas começaram a dar certo. Consegui patrocinadores bons na época que me ajudaram muito a crescer. Pessoas que acreditaram comigo no meu sonho. Nos últimos dois anos competi muito, medalhei 27 vezes em campeonatos da IBJJF. Chicago, Miami, São Francisco, Las Vegas. Lutei muito, muito, muito.

Nesse ano, graças a Deus, eu fiquei em terceiro no Pan-americano, que não é fácil chegar no pódio numa categoria de faixa preta, ainda mais vindo da história que eu venho. No Pan-americano lutei com um cara da Checkmat, Mário Liberto, ele é aluno do Lucas Leite e chegou às quartas esse ano no Mundial. E acabei parando na semi-final. Ainda aquela velha história de dar umas paradas nos grandes. Eu lutei de pesadíssimo.

Pesadíssimo

Eu não sou pesadíssimo, mas estou lutando de pesadíssimo. Comecei no ano passado. É um pouco de estratégia, que eu acho que o pessoal que é muito grandão não está tao acostumado a lutar com ninguém menor e eu me sinto mais rápido. É um jogo diferente, então às vezes eu complico eles bastante por isso e eu achei que foi legal quando eu tentei a primeira vez eu gostei. Porque força por força, do Galo ao Pesadíssimo, todo o mundo é forte. Se treinar com Guilherme Mendes, que é pluma, você vai sentir que ele é muito forte.

Então não tem grande diferença de força em si. A diferença é que ele é grande e pesado. Foi um pouco de estratégia também. Primeiro pensei: Vou ter de subir de categoria, está difícil de bater o peso. Eu experimentei e tenho gostado. Foi o ano passado praticamente inteiro, ou super pesado ou pesadíssimo. Na verdade eu comecei em 2012 a lutar de pesadíssimo. Foi no final de 2012 no Mundial. Eu falei: vou de pesadíssimo. E eu medalhei, eu fiquei em terceiro. Perdi para o campeão na semi-final, lutei com vários caras pesados, mas eu gostei. Peguei meu primeiro pódio de Mundial, sem quimono. Aí em 2013 inteiro eu fiz isso e foi quando eu peguei a maioria das minhas medalhas, 27 vezes nos últimos dois anos. Antes eu tinha medalhado no Pan-americano, mas na minha categoria normal de meio pesado e eu acabei parando, eu fiquei em terceiro também no Pan-americano de 2011, em Nova Iorque, eu acabei parando no Kayron Grace. Ele foi campeão nesse ano. Em vários opens eu ganhei, como o Miami Open. Ganhei com quimono, sem quimono. Ganhei o Las Vegas Open, ganhei o San Francisco Open, entre outros. Mas dos campeonatos principais, Pan-americano, Mundial, com quimono, sem quimono eu ainda tenho parado. Mas só de chegar no pódio é muito bom. Eu espero ir cada vez mais melhorando e no futuro alcançar o primeiro lugar.

Atos

A Atos ficou em segundo lugar no Mundial por muito pouquinho ponto, por seis pontos de diferença. Se a gente tivesse uma medalha a mais de ouro em qualquer faixa de adulto a gente tinha ganho, pelos resultados da faixa preta, pelos campeões da faixa preta.
Tem a Atos dos Mendes, aqui e algumas filiais nossas que a gente tem ao redor do mundo, mas são pequenas. Um fato interessante é que a gente entra geralmente nas competições grandes com a média de 80 atletas e as equipes grandes entram com 300 atletas, a Gracie Barra entra com 300 atletas. Eu fico feliz de estar aqui ajudando no crescimento da Atos. No início aqui na academia faixa preta era só eu e o André. Hoje em dia a gente tem vários atletas de ponta que procuram treinar forte e reconhecem a nossa academia como um bom celeiro de treino forte, de atletas bons.

O André é um ótimo líder, é um excelente professor e isso também faz com que a equipe tenha o sucesso que tem hoje. Tem muitos atletas bons. Os Mendes são excelentes professores, excelentes atletas, agora Hall da Fama, quatro vezes campeões mundiais cada um.

Jiu-Jitsu Moderno

Na verdade muitas posições como fifty e outras posições não são propriamente novas. Às vezes as coisas que usava antigamente, mas o pessoal às vezes parava naquela posição, usava um pouquinho e não desenvolvia tanto. A nova geração tenta estudar, estuda o Jiu Jitsu novo, o antigo e tenta incorporar novas coisas. E acaba descobrindo novas variações, novos jeitos de lutar. E isso acho que é a evolução do Jiu Jitsu, isso é que faz a graça do Jiu Jitsu, que o Jiu Jitsu não é tipo karatê, que tem aquela sequência de golpe, ou como o boxe, que você tem de só fazer uma combinação de golpes já pré-ordenados e praticar para ser mais rápido. O Jiu Jitsu evolui, aparece coisas novas, tipo o xadrez.
Acho que trava, com certeza, mas esse é o objetivo mesmo. Cada um usa a arma que tem. Se o cara luta bem solto, eu vou querer travar ele para parar ele. Se o cara luta muito travado, eu vou querer ficar solto. Então isso é estratégia de luta, isso é que é legal. Cada um tem um jogo diferente.

O pessoal que critica é porque não entende tão bem o jogo para poder entrar no jogo e fazer parte do jogo. O cara que critica é porque parou no tempo. "Ah, isso eu não gosto." Não é que ele não goste, ele não sabe. Se ele soubesse, ele gostaria. Se o cara não sabe fazer, como é que ele vai ensinar? Eu acho o seguinte: Trava, às vezes fica chato, realmente. Os dois puxam juntos, ninguém quer subir, o cara quer lutar por vantagem, fica ruim. O lance é que depois que a Federação, ela tem obrigação de acompanhar a evolução do Jiu Jitsu. Então eles têm que lançar regra nova para não poder ficar chato.

Essa regra nova que lançaram agora de 20 segundos quando os dois puxaram juntos. Vinte segundos, vai parar, sobe, punição para os dois e começa a luta de novo foi perfeita, porque obrigaram a lutar.

No Mundial agora não teve ninguém travando, lutando por vantagem. Os dois puxavam juntos, se ficava de amarração eram punidos. Agora fica emocionante. "Será que ele vai subir, será que o outro vai subir? E parou, punição para os dois. E se for de novo vai ser desclassificado." Ficou muito mais emocionante. Essa regra caiu perfeita, foi uma ótima decisão da Federação. O jogo funciona.

Desclassificado

Tem coisas loucas, como aquela que o Budo Jake botou no Instagram. Uma luta de faixa roxa, Master, no Mundial do ano passado. Começou a luta, o cara foi e deu um bico no outro. Aí foi desclassificado em 5 segundos. Ele não queria dar queda. Ele entrou no tatami, virou para mim e falou assim: "A luta vai acabar em menos de 10 segundos." Eu pensei: "O cara está tirando uma onda. Como é que ele vai finalizar rápido?" Falou de novo: "A luta vai acabar em menos de 10 segundos, mas meu oponente é que vai ganhar." Eu olhei para ele e falei: "Você não quer lutar? Você vai dar a vitória para ele, é isso?" E ele: "Não, eu quero lutar." Aí eu pensei: "Vai dar problema." Estava esperando alguma coisa acontecer. Aí eu comecei a luta, o cara foi, deu uma canelada no outro, parou, desclassifiquei e ele foi para casa feliz.
Impressionante, o cara pagou 130 dólares de inscrição, saiu da Mongólia, foi para cá para dar um bico e ir embora. E ainda tomar falta disciplinar, não é? Ele fica sem competir alguns campeonatos, a federação dá uma multa para ele. Tem que às vezes pagar cesta básica ou ficar sem competir por um ano ou dois anos.




Miami Open

Esse campeonato foi excelente, eu fiquei em segundo no Absoluto, eu perdi na final para o Cyborg, na casa dele em Miami. Eu lutei com Cyborg na final.  Teve lutas boas. Na semi-final eu ganhei do aluno do Cyborg, o Ricardo Resende, que ganhou até o Grand Prix do World Expo, de faixa preta, ele ganhou do Jackson Sousa, da galera. Eu ganhei dele na semi-final, eu estava perdendo de 10 a zero, faltando 30 segundos eu joguei ele para cima, peguei um arm lock total e ele ia fechar na final com o aluno dele e eu tive a felicidade de pegar esse arm lock.