Tanquinho por Bruno Tanque

no dia

Campeão Mundial, medalhas, títulos isso tudo são consequência de dedicação e trabalho. Tanquinho conquistou tudo no Jiu Jitsu, mas sabiam que poderia ter sido em outro esporte?


Tanquinho comemora o seu primeiro título de campeão mundial após vencer Rafael Mendes em 2013.


Por: Bruno Tanque Mendes 
Sócio / CEO Soul Fighters BJJ Association 
Faixa Preta 3º Grau 

Desde moleque, Tanquinho queria ser jogador de futebol, achava que jogava muito. Achava.
Chegou a fazer escolinha de futebol no Tijuca Tênis Clube, clube do bairro que morávamos e que o seu ginásio se tornaria mais adiante eternamente ligado a arte suave. Aliás, morávamos na rua exatamente em frente do ginásio. Era só subir a rua e ir lutar.

Tanquinho queria jogar futebol, ia jogar no Flamengo e na seleção. Quando entrei no Jiu Jitsu, ele e meus primos ficavam me zuando, que era luta de agarrar homem, os nomes dos golpes, essas coisas. Depois de um ano chamando ele para fazer uma aula, ele entrou e nunca mais saiu, o futebol ficou só como hobby.
Antigamente não tinha esse monte de campeonato que tem hoje em dia. O primeiro do Tanquinho já foi um Estadual e já chegou medalhando, ficou em 3º lugar, faixinha amarela. Foi treinando, se graduando, sempre disciplinado e focado.

Foi vice campeão Brasileiro na faixa amarela. nesse campeonato, se não me engano, começou algo que pouca gente sabe sobre o Tanquinho, ele é cheio de manias e superstições (hoje em dia ele as abandonou, mas quase se torna um TOC). Antes de cada luta ele vinha, colocava o par de chinelos milimetricamente alinhados lado a lado, cumprimentava o tatame e entrava. Ganhou, uma, ganhou duas, sempre com seus chinelos lado a lado. Na final, veio caminhando, foi tirar os chinelos, os colocou alinhados, cumprimentou o tatame e .... TROPEÇOU nos chinelos, os tirando do lugar. Na mesma hora virou para trás e olhou com aquela cara de “ferrou, perdi”. Não deu outra, perdeu.
Tirar isso foi difícil. Tanquinho, se treinava bem na segunda feira, fazia o mesmo percurso, da mesma forma todo dia até treinar mal, aí ele mudava a forma que ia. Chegaram a inventar que ele contava os passos, mas isso era mentira (será?). Depois que foi campeão mundial de faixa azul, só lutava os campeonatos com a mesma sunga e o mesmo kimono. Viraram farelos, pois o cara lutava tudo. Sempre muito técnico e com um jogo consistente e variado. Já nas faixas intermediarias Tanquinho já demostrava a base sólida que é sua marca registrada: o ajuste nas posições, o jogo em pé. Sempre foi um cara muito completo.
 

Tanquinho enfrenta Charles Cobrinha na semi-final do Mundial 2013.


No segundo ano de roxa, estava numa fase de muitas mudanças, cursava a faculdade de educação física, já era instrutor de jiu jitsu no Tijuca Tênis Clube, onde deu aula mais de 10 anos. Acordava as 05:00 da manhã, para treinar, de lá ia direto para a faculdade, voltava, treinava a tarde, dava aula no final da tarde e fechava o dia com mais um horário de treino. Foi lutar o mundial, se não me engano foram 6 lutas. Campeão, lutou muito! Antes da final dele, fiquei intrigado com uma coisa e após o campeonato fui perguntar a ele:
- Brother, tu antes da final, tava ali alongando, na beira do tatame, mas de uma hora para a outra ficava olhando para um lado e para o outro, procurando algo, levantou , foi até ao Alvaro, mexeu na perna dele, voltou pro teu canto, sentou e sossegou. Que foi isso cara?

A resposta, meus amigos, foi esclarecedora:
- Cara, na minha primeira luta, eu estava alongando e vi uma folha de papel ali no chão, entrei e ganhei a luta, na segunda, terceira, quarta, quinta luta a folha tava lá tb. Na final, eu tava alongando e não vi a folha de papel no chão, fiquei doido, procurei ela, e vi que tava embaixo do pé do Alvaro, levantei, fui lá e peguei a folha e coloquei no lugar dela, ai lutei e fui campeão.
Tanquinho foi campeão mundial devido à folha toda pisada no chão do TTC. Depois disso vieram seletivas de ADCC, outros campeonatos mundiais, sempre tendo uma evolução técnica e chamando atenção da galera, seja pela jiu jitsu ou seja pela postura sempre correta.
 

Tanquinho no mundial 2011 onde ele foi parado por Charles Cobrinha na semi-final.


Lutando um torneio de submission na Tijuca mesmo, Tanquinho teve a sua primeira lesão séria da carreira. Desarticulou o cotovelo. Lembro das palavras dele no caminho do hospital: Cara, acabou a minha carreira.
Mal ele sabia que era só a primeira de uma carreira de lesões sérias e também de um histórico de superação e resiliência.

O meio do Jiu Jitsu é engraçado, pois é uma família, e como toda família não perde a chance de dar uma zoada em alguma coisa. Tanquinho se machucou na luta contra um cara que o apelido era “Bananada”. Após Tanquinho se recuperar e aparecer na academia para o primeiro treino, ao final foi pegar a mochila dele e ao abrir estava cheio de doces de bananada dentro, mas ele levou na esportiva.
 

Podium do Mundial 2013.


Tanquinho começou a arbitrar, viajar, teve contato com o mundo, algo que o fez crescer como atleta e como pessoa. Vieram mais lesões, vitórias e derrotas. Lutou em Abu Dhabi, onde fez algo inédito na historia do Jiu Jitsu, ganhou no mesmo campeonato, na mesma categoria, quatro atletas da mesma academia, todos eles campeões, sejam mundiais ou do Pan e Europeu. Após esta vitória, Tanquinho vivia seu melhor momento da carreira, seminários, campeão de tudo que lutava. Foi quando treinando na academia de um grande amigo nosso, Claudio França, teve novamente uma luxação de cotovelo, mas desta vez teria que ir para a mesa de operação.
Pegamos Tanquinho no aeroporto, e de lá foi direto pro médico. Operou e teve uma longa recuperação. Voltou quase um ano depois e foi vice campeão mundial da IBJJF, quando estava recuperando ritmo e voltando a ter resultados, teve uma nova lesão, desta vez a pior da carreira. Muitos não sabem, mas Tanquinho teve a carreira dada como encerrada pelos médicos. Foi buscar novas opiniões e fez uma cirurgia delicadíssima. Um longo tratamento de reabilitação estava pela frente. Se focou em dar aulas, se mudou para os Estados Unidos e como professor deu um enorme suporte aos atletas da Soul Fighters lá fora.
No final do ano de 2012, voltou a competir, teve resultados bons e outros nem tanto. Mas no final da temporada de 2012 foi campeão mundial No Gi pela IBJJF, com direito a polêmicas e brigas virtuais.

Em 2013 estava em forma e tudo se refletiu em títulos, Bi campeão em Abu Dhabi, campeão Mundial IBJJF e convite para lutar o ADCC na China. Ele já anunciou a aposentadoria do kimono, com certeza vai lutar uma coisa ou outra, mas seu foco não é mais esse. Hoje ele integra uma respeitada equipe de MMA e treina focado para isso. Logo ele, que é da paz e se saiu na porrada umas cinco vezes na vida, foi muito.
 

Europeu 2013.


Mas deixo aqui um aviso e uma predição: Em breve será um dos melhores representantes brasileiros no MMA. Luta não tem a ver com cara, tem a ver com coração e atitude, Tanquinho já mostrou que tem ambos, seja nos tatames seja na vida. É um campeão de fato e de direito.

Para mim sempre será meu brother. Não consigo chama-lo de Tanquinho, para mim é o Gugu. Então se um dia virem um maluco berrando em campeonato que nem um doido: “Pega Gugu”, pode ter certeza que tem um cara altamente técnico e acima de tudo um ser humano maravilhoso lutando ali.
Que venham os próximos desafios. 
 

Europeu 2013.


Tanquinho x Leandro Lo at Copa Podio


Tanquinho x Leandro Lo at Copa Podio


Tanquinho x Rafael Mendes, Final match at Worlds 2013.


Tanquinho x Rafael Mendes, Final match at Worlds 2013.


Training at Soul Fighters Academy in Rio, May 2011.